“Hoje estamos todos na iminência da terra não suportar nossa demanda. Como diz o Pajé Yanomami David Kopenawa, o
mundo acredita que tudo é mercadoria a ponto de projetar nela tudo o que somos capazes de experimentar. A experiência das
pessoas em diferentes lugares do mundo se projeta na mercadoria significando que ela é tudo o que está fora de nós. Essa
tragédia que agora atinge a todos é adiada em alguns lugares, em algumas situações regionais nas quais a política – o poder
político, a escolha política – compõe espaços de segurança temporária em que as comunidades, mesmo quando já esvaziadas
do verdadeiro sentido do compartilhamento de espaços ainda são, digamos, protegidas por um aparato que depende cada vez
mais da exaustão das florestas, dos rios, das montanhas, nos colocando num dilema em que parece que a única possibilidade
para que comunidades humanas continuem a existir é à custa da exaustão de todas as outras partes da vida.”
Krenak, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 45-46
Considerando a obra Ideias para adiar o fim do mundo e o excerto selecionado, que problematiza o processo de
mercantilização da vida como raiz da crise econômica, assinale a alternativa correta.
A) A obra sugere que a “segurança temporária” proporcionada por políticas regionais é uma forma de violência lenta, pois,
ao mesmo tempo que protege comunidades, as torna cúmplices do sistema que devora a natureza.
B) Krenak apropria-se da fala de Kopenawa para argumentar que a mercadoria é um simulacro da experiência humana, mas
que, paradoxalmente, essa mesma lógica pode ser subvertida por movimentos sociais que transformam o consumo em
ato político.
C) O “adiar o fim do mundo” não seria uma metáfora, mas um protocolo indígena de gestão de crise, baseado em saberes
ancestrais que calculam os limites precisos de exploração da Terra, algo que a ciência ocidental ainda não conseguiu mapear.
►D) Para Krenak, a mercantilização da vida – que transforma até mesmo experiências subjetivas em commodities – é um dos
pilares da crise civilizatória, pois nos aliena da percepção de que nossa existência depende da saúde dos ecossistemas,
não de sua exploração infinita.
E) Krenak defende que a política moderna, ao criar zonas de segurança temporárias, é capaz de restaurar o sentido autêntico
do compartilhamento comunitário, revertendo a lógica de exaustão ambiental imposta pelo capitalismo.